terça-feira, 1 de novembro de 2011


Menina e Moça
                Ela não esqueceu nunca o tempo em que era uma camponesinha descarada que dançava debaixo de aveleiras em flor. Ri facilmente e, ao menor pretexto, tira os sapatos, prende a saia com a mão, parte outra vez ao encontro da sua natureza que aceita mal a convenção e os arrebiques. Tem o latim por pai, é certo, mas um pai com barba vagabunda, alheio á higiene e às declinações. Herdou das mouras uma certa languidez essa demora no olhar que indica a predisposição para o descuido nos pormenores mais práticos da vida. Atravessou-a o espírito dos Celtas. Está visto que haveria de nascer versejante e com algum defeito de maneiras. Creio eu que, como em todas as moçoilas, lhe resulta o desleixo em sedução.
                Não se ajeita a discursos, a não ser que pisque o olho e sopre malandrice, sermoneando ao peixe em vês de ao homem, para que o homem se sinta mas não possa acusar o envio da censura. Mesmo no grande épico lusíada, vemos Camões a rir daquele marinheiro, Veloso de seu nome, que desceu em muito menos tempo do que o tinha subido um outeiro que escondia nativos assanhados. Por efeitos de história e crescimento, civilizou-se um pouco, entrou na corte, fez vénias ás muitas modas chegadas do estrangeiro. Viu-se que sufocava no espartilho e que as anemias literárias, se vão bem com a frágil compleição das inglesas, só conseguem, á nossa, encardir-lhe as feições.
                Grandes amores teve ela com Mestre Gil Vicente e foi esse um enlace sem igual na duração e na intensidade, e, mais, em nunca um do outro se enjoarem, antes encherem de apalpões e viço as deprimidas salas palacianas. Mesmo nas ligações com gente lacrimosa, como era o caso de Camilo Castelo Branco, lhe escapa muita vez o estilo ao romantismo para retomar á mão na anca e á chacota. Se eu quisesse ser má, avançaria que não é ilusão das sombras este buço que lhe vemos encimar-lhe o lábio superior. Tem uma exuberância de corpo que não leva ao feminismo porque não precisa de ser filosofada a sua força. Há nela aquela espécie de ardor matriarcal que fez com que as melhores das nossas heroínas fossem bastantes mais impiedosas do que qualquer guerreiro experimentado.
(…)
                Saiu para além do mar com os marinheiros, mas não entendeu nada do Império. O que quis foi misturar-se. Enquanto eles degolavam e ofendiam, ela deitou-se na frescura das palhotas e gerou promissoras combinações de espécies. Enquanto a missa e a lei teimavam no latim, ela, a menina do descaramento, espalhava as filhas pelo mundo fora, numa alegre e opulenta sementeira. Abriu os braços a fonemas e a deuses que eram até então estrangeiros e hostis mas nela se deixaram docemente fundir.
                Enquanto a nobreza degenera, por secagem de sangue e doçarias, a nossa mocetona continua trocando afecto em terras de África e Brasil, tomando e oferecendo, e outro não é o segredo da sua juventude. (…)

Hélia Correia, 12-06-1997 (texto com supressões)

Este belíssimo texto, alusivo a uma “ menina descarada” ,é uma perfeita alusão á língua Portuguesa, assim como esconde muitos dos nossos escritores contemporâneos ( aconselho a ler na íntegra) . A “menina” mais uma vez abriu os “braços” e se deixou docemente fundir, nos braços de " nossos irmãos brasileiros" sendo alvo de mais uma alteração, passando a ser erro o não respeitar as suas alterações. O novo acordo ortográfico entra oficialmente em vigor em 2012.

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