segunda-feira, 21 de novembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
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| O Primeiro Amor Leva Tudo |
| É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo. Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal «só porque acaba». Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo. O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói — porque parece que vai acabar de repente. E o primero amor dói sempre de mais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte «um único bocadinho de nós». Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. E inobservável. E difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada. Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado. Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas' |
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Menina e Moça
Ela não esqueceu nunca o tempo em que era uma camponesinha descarada que dançava debaixo de aveleiras em flor. Ri facilmente e, ao menor pretexto, tira os sapatos, prende a saia com a mão, parte outra vez ao encontro da sua natureza que aceita mal a convenção e os arrebiques. Tem o latim por pai, é certo, mas um pai com barba vagabunda, alheio á higiene e às declinações. Herdou das mouras uma certa languidez essa demora no olhar que indica a predisposição para o descuido nos pormenores mais práticos da vida. Atravessou-a o espírito dos Celtas. Está visto que haveria de nascer versejante e com algum defeito de maneiras. Creio eu que, como em todas as moçoilas, lhe resulta o desleixo em sedução.
Não se ajeita a discursos, a não ser que pisque o olho e sopre malandrice, sermoneando ao peixe em vês de ao homem, para que o homem se sinta mas não possa acusar o envio da censura. Mesmo no grande épico lusíada, vemos Camões a rir daquele marinheiro, Veloso de seu nome, que desceu em muito menos tempo do que o tinha subido um outeiro que escondia nativos assanhados. Por efeitos de história e crescimento, civilizou-se um pouco, entrou na corte, fez vénias ás muitas modas chegadas do estrangeiro. Viu-se que sufocava no espartilho e que as anemias literárias, se vão bem com a frágil compleição das inglesas, só conseguem, á nossa, encardir-lhe as feições.
Grandes amores teve ela com Mestre Gil Vicente e foi esse um enlace sem igual na duração e na intensidade, e, mais, em nunca um do outro se enjoarem, antes encherem de apalpões e viço as deprimidas salas palacianas. Mesmo nas ligações com gente lacrimosa, como era o caso de Camilo Castelo Branco, lhe escapa muita vez o estilo ao romantismo para retomar á mão na anca e á chacota. Se eu quisesse ser má, avançaria que não é ilusão das sombras este buço que lhe vemos encimar-lhe o lábio superior. Tem uma exuberância de corpo que não leva ao feminismo porque não precisa de ser filosofada a sua força. Há nela aquela espécie de ardor matriarcal que fez com que as melhores das nossas heroínas fossem bastantes mais impiedosas do que qualquer guerreiro experimentado.
(…)
Saiu para além do mar com os marinheiros, mas não entendeu nada do Império. O que quis foi misturar-se. Enquanto eles degolavam e ofendiam, ela deitou-se na frescura das palhotas e gerou promissoras combinações de espécies. Enquanto a missa e a lei teimavam no latim, ela, a menina do descaramento, espalhava as filhas pelo mundo fora, numa alegre e opulenta sementeira. Abriu os braços a fonemas e a deuses que eram até então estrangeiros e hostis mas nela se deixaram docemente fundir.
Enquanto a nobreza degenera, por secagem de sangue e doçarias, a nossa mocetona continua trocando afecto em terras de África e Brasil, tomando e oferecendo, e outro não é o segredo da sua juventude. (…)
Hélia Correia, 12-06-1997 (texto com supressões)
Este belíssimo texto, alusivo a uma “ menina descarada” ,é uma perfeita alusão á língua Portuguesa, assim como esconde muitos dos nossos escritores contemporâneos ( aconselho a ler na íntegra) . A “menina” mais uma vez abriu os “braços” e se deixou docemente fundir, nos braços de " nossos irmãos brasileiros" sendo alvo de mais uma alteração, passando a ser erro o não respeitar as suas alterações. O novo acordo ortográfico entra oficialmente em vigor em 2012.
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