As memórias são sempre memórias, sejam elas familiares, profissionais ou culinárias. E nós eternos saudosistas, com o tempo e a distância tudo o que recordamos se torna maior e melhor do que realmente foi. Saudosistas até no palato, salivamos só de lembrar pequenas delicias , comidas em tempos longinquos, talvez na infância, adolescência ou já adultos, em boa companhia. Podendo até degustar muitas vezes, jamais terão o mesmo sabor, gosto e prazer.
Sou saudosa, daquele bolo feito pela minha Mãe, num simples e desusado forno a gaz, cuja cobertura de acúcar branco, escondia um bolo simples de água, ou de sumo de laranja ( “laranjada”, como a Mãe dizia). Por vezes saía um pouco queimado, devido a este percalço culinário, foi apelidado de “ banco e pêto”. Não olhando á sua fraca aparência e não fazendo justiça aos dotes culinários da minha mãe, o meu/ nosso bolo “ banco e pêto”, era disputado á fatia, por nós adultos (6) e pelas nossas crianças (3), desaparecendo como que por magia, devorado entre dentadas, gargalhadas, felicidade e gulodice. A Mãe feliz, por nos ver a todos comer do seu bolo tão avidamente, sinal de que estava saboroso , assim era sem dúvida , voltava a fazer outro para o dia seguinte.
Este bolo foi durante muitos anos um espectador atento, mudo e cúmplice destas reuniões familiares de fins de semana. A receita é impossível de revelar, os seus ingredientes possuíam sabores, secretíssimos, que só nós conhecemos. O sabor da união familiar, do carinho, do aconchego e da ternura.
Novo ingrediente foi adicionado a esta receita “ saudade”, a minha mãe está neste momento á beira dos 90 anos , não se atreve mais a deitar" mão á massa", e a fazer mais o seu “ banco e pêto”, mas, mesmo que o voltasse a fazer, não teria o mesmo gosto.
As crianças de outrora, deixaram de o ser, algumas fatias já não teriam o seu ” dono guloso”, muitas gargalhadas se calaram para sempre. Eu tornei-me “saudosa”, de saberes, sabores e viveres, de tempos findos, que jamais voltarão. Saudosa daqueles tempos em que ainda éramos todos “felizes-gulosos”, teimo em perpetuar no espírito e no palato o “sabor” deste bolo. Um sabor longínquo, um sabor que a memória lembra, e que cada dia se torna para mim mais doce,… ou agri-doce!
09/10/2012- R.T.