sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O teu retrato


O Teu retrato;
Salta-me aos olhos!
Que de Ti , guardo a alma porque outra imagem  não tenho;
Teu sereno sorriso, profundo, da imensa ternura do teu EU.
Teus lábios suaves, fechados,  que encerraram para sempre palavras por dizer,
Que terias  para me falar, mas que não TE atreves-te a dizer, nem eu a perguntar!
Talvez, tão-somente o quanto gostávamos Uma da Outra;
Teus cabelos jogados atestavam a Tua timidez,
Sombria , que me impediam de  ver o teu  rosto.
Passo a passo, momento a momento, dia a dia vou-te construindo do jeito que hoje te recordo,
Vejo-te  por inteiro...Como as linhas que de Ti escrevo.
Sinto a Tua presença e ouço a Tua gargalhada sonora, … ilusão!
A imagem que de Ti faço é o retrato que de Ti tenho!
Imagem minha, …
Retrato Teu.
 RT.(10/07/2012)

As memórias do Palato


      As memórias são sempre memórias, sejam elas  familiares, profissionais ou  culinárias. E nós eternos saudosistas, com o tempo e a distância tudo o que recordamos se torna maior e melhor do que realmente foi. Saudosistas até no palato, salivamos  só de lembrar pequenas delicias , comidas em tempos longinquos, talvez na  infância, adolescência  ou  já adultos, em  boa companhia.  Podendo  até degustar muitas vezes, jamais terão o mesmo sabor, gosto e prazer.
Sou saudosa, daquele bolo feito pela minha Mãe, num simples e desusado forno  a gaz, cuja cobertura de acúcar branco, escondia um bolo simples de água, ou de  sumo de laranja ( “laranjada”, como a  Mãe  dizia). Por vezes saía um pouco queimado, devido a este percalço culinário, foi  apelidado de “ banco e pêto”. Não olhando á  sua  fraca aparência e não fazendo justiça aos dotes culinários da minha mãe, o meu/ nosso  bolo  “ banco e pêto”, era disputado á fatia, por nós  adultos (6) e pelas nossas crianças (3), desaparecendo como que  por magia,  devorado  entre dentadas,  gargalhadas,  felicidade e  gulodice. A Mãe feliz, por nos ver a todos  comer do seu bolo tão avidamente,  sinal de que estava saboroso , assim era sem dúvida , voltava a fazer outro para o dia seguinte.
Este bolo foi durante muitos anos um espectador atento, mudo e  cúmplice  destas reuniões familiares de fins de semana. A receita é impossível de revelar,  os seus ingredientes  possuíam sabores,  secretíssimos, que só nós conhecemos. O sabor da união familiar, do carinho, do aconchego e  da ternura.
Novo ingrediente foi adicionado a esta receita “ saudade”, a minha mãe está neste momento á beira dos 90 anos , não se atreve mais  a deitar" mão á massa", e a fazer  mais o seu “ banco e pêto”, mas, mesmo que o voltasse a fazer,  não teria o mesmo gosto.
  As crianças de outrora, deixaram de o ser,  algumas  fatias já não teriam o   seu ” dono guloso”,  muitas  gargalhadas  se  calaram  para sempre.  Eu tornei-me  “saudosa”,  de saberes, sabores e viveres,  de  tempos findos, que jamais voltarão. Saudosa daqueles tempos em que ainda éramos todos “felizes-gulosos”, teimo em perpetuar no espírito e no palato o “sabor” deste bolo. Um  sabor  longínquo, um  sabor  que  a memória lembra, e  que  cada dia se torna para  mim  mais doce,… ou agri-doce!

09/10/2012- R.T.